capítulo 6 - no funeralFicou alguns momentos parado. Momentos esses que parecem eternos. Ele deve estar numa batalha interna, mas porque?
-Está tudo bem?
-Desculpa, sim está tudo bem. Então, gostas deste lugar?
-É muito giro. Parece um daqueles sítios tirados dos contos de fadas.
-Pois parece, mas não é. Este lugar foi onde os meus pais se conheceram.
-Eles conheceram-se aqui? Mas vocês não são da América?
-Nem por isso. Nós de tempos a tempos mudamo-nos. Eu nasci na Grécia.
-Tu nunca me contas coisas sobre ti. Por favor, eu quero conhecer-te melhor.
-Tudo bem… Eu fui transformado à 153 anos quando tinha 17 anos. Nessa altura eu estava na Inglaterra a ajudar o meu pai. Nessa noite fui ter com uns amigos de infância a um bar nocturno em Londres. Quando saí do bar despedi-me deles e fui para casa sozinho a pé. Já conhecia uns atalhos directos ao hotel onde estávamos hospedados que me poupavam 15 minutos. Já era tarde e eu decidi ir por aí. Os atalhos consistiam em rua estreitas e com pouca iluminação. Estava mais ou menos a meio do caminho quando senti que estava a ser seguido. Acelerei o passo para não haver chatices àquela hora da noite. De repente algo cai à minha frente. Olhei bem e vi que era um rapaz jovem. Tentei falar calmamente para ele, mas apareceu um outro atrás de mim. Eles começaram a falar um com o outro. Eu estava tão mal que não me lembro muito bem o que eles diziam, mas percebi que eles estavam a discutir algo sobre mim. Depois o primeiro rapaz disse que aquele era o meu dia de sorte que me podia dar a vida eterna, mas eu tinha de sofrer um pouco antes. O segundo atirou-me contra a parede e mordeu-me o pescoço. Nos três primeiros dias a cabeça parecia fogo a arder e não conseguia mexer o corpo.
Ele não estava muito à-vontade para falar naquele assunto, via-se pela sua cara. Custa-me vê-lo assim.
-Nunca tiveste uma companheira?
-Não.
Gosto dessa ideia. Eu sou a primeira que ele ama em 153 anos. Fico feliz em saber. Ele deve ter reparado e começou-se a rir.
-E tu? Também sou o primeiro?
-Nunca amei ninguém como te amo, mas já tive um namorado. Tinha eu 13 anos, ainda era nova. Ainda hoje penso se gostava mesmo dele ou se só o achava bonito. Coitado, foi o único com sorte. Eu não gosto muito de namoros, até que aquele namoro só durou 1 mês.
É estranho me lembrar do João. Era um ano mais velho. Foi o meu único namoro e tinha sido um desastre. Acabámos porque ele estava com ciúmes de um colega de turma que tinha ficado comigo para fazer um trabalho de grupo para ciências e ele passou uma tarde inteira em minha casa. O João pelo mês que passámos juntos deu para perceber que era obsessivo. Apesar de tudo ele era muito giro. Na altura as raparigas invejavam-me, mas eu nem ligava.
-Esquece o passado e volta ao presente.
Ele está incomodado, mas eu percebo a situação dele. Ele não me podia tocar e beijar como os outros rapazes. Isso fá-lo infeliz. Por esse motivo e por outros ele gostava que eu me tornasse um deles. Seria muito mais fácil, mas eu ainda não estou preparada.
-Já é muito tarde. Levo-te a casa?
-Não, espera. Quero-te perguntar uma coisa.
-Diz.
-Promete-me antes que me vais contar a verdade.
-Se a resposta tiver ao meu alcance porque haveria eu de te mentir?
-Para me protegeres ou porque achas melhor eu não saber…
-Pergunta e depois se vê.
-O que estavas a pensar quando chegámos cá e me pegas-te na cara?
-Hum… já não me lembro.
-Mentes! Diz-me a verdade. O que é que isso tem de mal?
-Se souberes vais começar a fazer coisas que eu não gosto.
-Por favor, eu prometo que não faço nada!
-É melhor levar-te para casa. Vamos!
(em casa)
-Olá, pai! A mãe já chegou?
-Sim. Ela está no jardim. Ela anda muito estranha. Sabes o que se passa?
-Não. Ela ficou estranha desde que lhe contei o que aconteceu aos pais da Sandra… Eu vou falar com ela!
Saí para a rua e via ao pé da piscina.
-Está tudo bem, mãe? Andas estranha.
-Apenas fiquei triste ao que aconteceu aos pais da tua amiga.
-Pois, ninguém estava à espera… Conhecia-os?
-Mais ou menos. Andámos na mesma escola primária, mas nunca falámos muito.
-Então não fiques tão triste.
-Está bem, filhota. Quando é que é o funeral da mãe dela?
-Amanhã no final das aulas.
-Está bem.
-Vou comer qualquer coisa e vou dormir.
-Então dorme bem.
-Até a manhã.
(no dia seguinte)
Acordei com a campainha a tocar. Levantei-me e vesti-me.
Desci para o pequeno-almoço e vejo a Sandra na sala.
-Olá, amiga. Estás aqui?
-Sim. Precisava de companhia. Estou farta de estar sozinha. Não consigo parar de pensar naquilo que aconteceu.
-Não penses mais nisso. Na escola quero ver-te forte, está bem?
-Está bem.
(no final das aulas)
Durante as aulas o Peter ficava ao pé de mim. A Sandra não reparou na troca de olhares durante todo o dia e isso era bom. Ela não pode desconfiar que se passa alguma coisa entre mim e os novos alunos.
Acabaram as aulas e chegou a hora do funeral. A Sandra e a irmã estavam a chorar muito. Os meus pais também vieram.
(no final do funeral)
O meu telefone tocou e eu atendi.
-Olá, Peter!
-Olá! Queres vir ter comigo?
-Claro. Já estou com saudades tuas. Onde estás?
-Quero que vás para casa. Estarei lá à tua espera.
-Em minha casa? Porque? Os meus pais vão te ver.
-Não te preocupes. Eu serei discreto. Não demores, eu sei que o funeral já acabou.
-Ok! Até já.
-Até já.
Desliguei o telefone e fui ter com a Sandra.
-Vou ter de ir embora, amiga. Ficas bem?
-Sim. Obrigada por tudo.
-De nada. Sabes que sempre que precisares estarei aqui para te ouvir.
-Eu também.
-Eu sei. Adeus.
-Adeus.
Fui ter com o meu pai e com a minha mãe para lhes dizer que estava na hora de irmos para casa.
-Eu tenho coisas a fazer, podemos ir embora para casa?
-Claro que sim, querida.
-Vocês vão indo. Eu fico.
-Porquê, mãe?
-Quero falar com uma amiga de infância que já não falo à muito tempo.
Aquilo era muito estranho. O Peter tinha de me contar o que se passava.